Três mudanças num ano
Vemos as pessoas três dias por ano, com oito meses de intervalo — e reparamos no que você não consegue: a sua própria vida a melhorar.

A primeira vez que mudámos o Juan, havia menos caixas do que ele nos tinha dito que haveria.
As pessoas quase sempre exageram para mais. Ele tinha feito ao contrário, o que é mais raro, e normalmente quer dizer o mesmo: parte do que estava naquele apartamento não ia com ele.
Estava a mudar-se para um sítio mais pequeno. Levou a planta ele próprio, ao colo, no banco da frente, e falámos do tempo, que estava a fazer aquela coisa cinzenta específica que o Porto faz em março. Foi educado o caminho todo. No sítio novo disse-nos onde iam as coisas, agradeceu como deve ser, e fomos embora.
Há trabalhos de que se sai a conduzir e se pensa neles um dia ou dois depois. Aquele foi um.
Voltou a ligar cerca de cinco meses depois.
Soube antes de ele acabar a primeira frase. Ouve-se na forma como alguém marca uma mudança — esta tinha uma data que o entusiasmava e uma lista que não parava de crescer enquanto estávamos ao telefone.
Mais caixas desta vez. Um sítio maior lá para os lados da praia, partilhado com dois amigos, daqueles apartamentos com um quarto a mais que ninguém decidiu ainda o que fazer com ele. Tinha comprado uma mota. Veio na carrinha, deitada de lado, embrulhada numa manta, e pediu desculpa por ela umas quatro vezes.
A terceira mudança foi mais ou menos um ano depois da primeira.
Ia viver com alguém. O que significava duas de tudo: duas chaleiras, duas tábuas de engomar, quatro tachos num país onde ninguém tem quatro tachos. Há uma comédia particular em juntar dois apartamentos e toda a gente envolvida sabe disso, e passámos a maior parte daquela tarde a rir sobre qual dos dois sofás ia sobreviver.
(Misturei aqui algumas pessoas. O Juan é real, e também a mulher que passou de um apartamento pequeno sozinha, para um sítio com amigos, para um apartamento cheio de luz com o namorado com quem se tinha reconciliado. Esbati o que pude entre eles. A forma é exata. Os pormenores não são de ninguém em particular.)
Não sabemos nada sobre esses onze meses
Aqui está a coisa a que volto sempre.
Não estivemos lá para a parte em que melhorou. Não sabemos se houve uma noite em que virou, ou uma conversa, ou se simplesmente foi passando devagar como quase tudo passa. Não vimos a entrevista de emprego, nem a discussão, nem a terça-feira em que decidiu comprar uma mota.
Vimos três dias. Três vãos de porta. Ficámos com as fotografias e nada do filme.
E comecei a achar que isso não é uma limitação deste trabalho. É o estranho privilégio dele.
Porque não se consegue ver o nosso próprio progresso
Vive-se à velocidade normal. Um ano são trezentos e sessenta e cinco dias em que não está visivelmente a resultar — em que o apartamento continua pequeno, a língua continua difícil, o trabalho continua a ser o trabalho. Nada numa vida se anuncia como uma melhoria enquanto está a acontecer. É só quarta-feira, outra vez.
Vemo-lo em março e depois outra vez em novembro. E porque somos nós a carregar a mobília das duas vezes, reparamos em coisas que você não consegue: que há mais dela. Que é melhor. Que alguém nesta casa comprou uma mesa a sério.
Isso é verdade para quase toda a gente que mudamos duas vezes, e é esmagadoramente verdade para quem se mudou para cá de outro sítio. A imigração em particular sente-se, por dentro, como estar parado enquanto se trabalha imenso. De fora, com oito meses de intervalo, parece o que de facto é, que é alguém a construir uma vida a uma velocidade bastante espantosa.
O casal cujo apartamento ficou pequeno de mais por causa do bebé, a ir para um sítio com um quarto para ele. As pessoas que mudam uma vez e depois mudam outra vez para uma rua que escolheram mesmo. Ninguém naquelas carrinhas se vê como alguém cuja vida está visivelmente a melhorar. Veem-se como alguém com muito para carregar.
Nem todos os anos correm assim, e também vemos esses. Não os vou descrever. Pertencem a quem os viveu, e recebem a mesma carrinha e o mesmo cuidado e o mesmo porta-chaves de gato à porta.
Mas posso dizer-lhe a proporção, e a proporção é boa.
Por isso, se está a meio de um desses anos neste momento, e não parece estar a ir a lado nenhum — é assim que o meio se sente. Não é prova de nada. Ninguém consegue ver a sua própria vida à velocidade a que nós a vemos.
Precisaria de alguém que só aparece nos dias em que algo mudou.
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