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Viver no Porto

Arrumos

Duas chamadas na mesma semana: podem levar este sofá ao ecoponto, e tenham cuidado com estas cinco caixas de bibelots. São o mesmo sistema, visto de duas pontas.

Don Michi · Porto·6 min de leitura
Arrumos

Duas chamadas na mesma semana. Às vezes da mesma família.

A primeira: podem levar um sofá ao ecoponto. Não tem nada de mal. Só já não o queremos.

A segunda: podem levar cinco caixas de bibelots de um lado ao outro da cidade. Coisas pequenas. Figurinhas, jarras, flores artificiais. Tenham cuidado com elas, por favor.

Durante muito tempo achei que estas duas chamadas se contradiziam. Não se contradizem. São o mesmo sistema, visto de duas pontas — e quando se dá pela regra, já não se consegue deixar de a ver.

A divisão que não aparece nas fotografias

Debaixo de muitas casas aqui há uma divisão que nunca aparece nas fotografias da imobiliária.

Arcas. Candeeiros. Bicicletas. Chapéus. Guarda-chuvas. Copos e pratos e um serviço de jantar para vinte. Escadotes. Um corta-relva. Móveis, sempre móveis, e quanto mais pesados melhor. Malas e sapatos fora de moda, guardados dentro de outros móveis. Caixas de ferramentas. Quadros, empilhados.

Já estive em caves do tamanho de um supermercado pequeno.

E nada daquilo está desarrumado. Essa é a parte que eu não esperava.

A roupa está dobrada. As coisas estão limpas. As caixas têm as tampas postas, os móveis estão empilhados como empilha móveis quem tenciona voltar a encontrá-los. Não se sai dali cheio de pó e irritado como se sai de uma arrecadação de tralha. É mais parecido com sermos deixados entrar num museu privado que por acaso não tem visitantes nem legendas.

O que já é uma prova, se pensarmos nisso um segundo. Ninguém dobra lixo.

E o movimento lá em baixo segue a forma de uma família. Um filho emigra, e a mobília do apartamento dele desce. Volta anos depois, e a mobília da casa dele desce também, porque agora há obras. A família cresce, encolhe, casa, separa-se, muda-se para o outro lado da cidade. Cada um desses acontecimentos manda alguma coisa escada abaixo.

Ninguém diz nunca isto é lixo. O que se diz é logo se vê.

Deitam coisas fora. Constantemente.

Esta é a parte que demorei uns anos a perceber.

Deitam coisas fora. Constantemente. Uma boa parte do nosso trabalho são viagens ao ecoponto com sofás, mesas, roupeiros e colchões perfeitamente decentes — mobília que em qualquer outro sítio seria vendida em segunda mão e que aqui simplesmente, alegremente, acabou.

Portanto não é que não se consiga largar nada. Está a fazer-se uma triagem, e o critério é extremamente preciso.

Um sofá em bom estado vai.

Doze cachimbos que pertenceram a um trisavô não vão, e ninguém naquela casa fuma há cinquenta anos.

Não é arrumação. É o que se passa a alguém.

A minha leitura — e é uma leitura, não um facto sobre um país — é que aquelas caves não são arrumação.

São onde uma família guarda aquilo que tenciona passar a alguém.

Não o que pode vir a dar jeito. O que alguém, um dia, é suposto receber. Os cachimbos. As garrafas de vinho que ninguém vai abrir. Uma receita de bacalhau que só resulta mesmo quando é uma tia em particular a fazê-la. A mobília pesada onde três gerações comeram. Símbolos entalhados nas coisas.

O que explica a triagem na perfeição. O sofá vale dinheiro e não carrega nada. As cinco caixas de bibelots não valem nada e carregam tudo. Cobra-se ao metro cúbico e está-se a pôr o preço exatamente ao contrário.

E as pessoas aqui riem-se disso elas próprias. Aparece como piada, com afeto, como se fala de um hábito nacional que não se tem a menor intenção de largar. Ninguém precisa de um estrangeiro para lho apontar — eu sou só quem acaba por carregar aquilo escada abaixo.

Também não acompanha o dinheiro, que foi o que mais me surpreendeu. Já vi isto numa casa com estátuas dentro de portas, e num T1 onde a herança inteira cabe em cinco caixas e se muda com o dono todas as vezes. O mesmo instinto. Metros quadrados diferentes.

E depois olhei para o quarto que me sobra

Uma mesa, ainda na caixa, que nunca cheguei a tirar. Pranchas de surf que deixei de usar porque não há tempo. Caixas e caixas de ferramentas. Tintas de um passatempo de que já não gosto, porque outros passatempos o substituíram. Objetos que não lhe saberia descrever se me perguntasse.

Não é um museu. Não há nada dobrado lá dentro.

Cheguei a este país com duas malas.

Se tivesse de me mudar amanhã, era precisa uma carrinha. Possivelmente duas. E uma terceira para as jarras e as plantas.

Não faço ideia de como isto aconteceu. Não consigo apontar o momento. Não houve nenhuma decisão — o que, agora que o escrevo, é exatamente o ponto das caves: ninguém decide nunca. As coisas simplesmente deixam de sair.

Há uma palavra para isto: arrumos

O que eu gosto nela é que não dá nome a uma divisão. Dá nome às coisas — e depois, por extensão, ao espaço de que elas tomaram conta. Um quarto a mais, um sótão, uma cave, uma arrecadação alugada numa zona industrial que existe apenas para que as famílias possam continuar a ter caves depois de a cave estar cheia. O sítio não está especificado. Só a finalidade.

A minha primeira casa no Porto tinha uma cave enorme. Lembro-me de estar ali de pé a rir-me. Para que é que alguém precisa de tanta cave.

Agora preciso de uma. Muito.

Por isso deixei de pensar nisto como um hábito português e comecei a pensar nisto como o que acontece a qualquer pessoa que fique num sítio tempo suficiente para começar a guardar coisas para depois.

Há quem tenha uma cave para isso. Há quem tenha cinco caixas. Eu tenho um quarto a mais e uma mesa que nunca desembalei.

Se alguma coisa disto está prestes a tornar-se um problema seu — uma cave para esvaziar, uma ida ao ecoponto, ou cinco caixas que têm de chegar inteiras — é trabalho que fazemos, e não confundimos as duas coisas.

Cuidamos das suas coisas. Mas também tentamos cuidar do momento por que está a passar.

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