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Cento e sessenta caixas, e um livro

Mudar uma biblioteca de nove mil livros pelo Porto — e o único volume que viajou no banco do passageiro.

Don Michi · Porto·5 min de leitura
Cento e sessenta caixas, e um livro

No papel, o trabalho eram cento e sessenta caixas e um livro.

Nove mil volumes, de uma casa de um lado do Porto para uma faculdade do outro, onde vão ser restaurados. Duas moradas, uma tarde, uma carrinha.

A casa é daquelas que assumimos ser um museu até alguém nos abrir a porta. Não estamos ali como visitantes. Estamos ali porque alguém tem de carregar as caixas escada abaixo, e demora, e reparamos nos tetos.

Quando chegámos, a parte difícil já estava feita, e nada dela era nossa.

A bibliotecária e a sua equipa andavam naquilo há meses. Cada livro inventariado. Cada caixa embalada por ordem, para que a coleção saísse da carrinha como entrou — não como nove mil livros, mas como esta biblioteca, na sua própria sequência, com a sua própria lógica.

Isso são meses de trabalho que não deixam rasto no dia. Quando lá chegámos, parecia uma sala com caixas dentro.

Um livro não coube

Há sempre um. É por isso que a conta é o que é: cento e sessenta caixas, e depois este. Era grande de mais para o que tinham, por isso viajou nos meus braços, a atravessar o pátio, para dentro da carrinha, e ficou no banco do passageiro durante a viagem como uma pessoa.

Capa vermelha, letras douradas, gasto nos cantos: Fernão Vaz Dourado. Um cartógrafo do século XVI, nascido em Goa, que desenhava cartas náuticas e as iluminava a ouro — litorais, rosas dos ventos, o mundo conhecido tal como era antes de a maior parte dele ser conhecida.

É o único dos nove mil que vi.

Todo o resto foi selado há meses por alguém que sabia exatamente o que estava lá dentro. Carreguei uma biblioteca de um lado ao outro de uma cidade e sei dizer o conteúdo de um livro dela. O resto continua a ser um mistério para mim, e vai continuar a sê-lo.

Cento e sessenta caixas, ou nove mil livros

Aqui está a coisa que não me sai da cabeça.

Na fatura, aquele dia são cento e sessenta caixas e uma distância. Essa é a parte do trabalho que se pode contar, e contá-la não é errado — alguém tem de pôr preço no trabalho, e caixas e quilómetros são aquilo de que um preço é feito.

Mas cento e sessenta caixas e nove mil livros são dois objetos diferentes.

Quem vê cento e sessenta caixas empilha-as como as caixas se empilham: as mais pesadas por baixo, preencher os espaços, fechar a porta. Quem vê uma biblioteca mantém a ordem, porque a ordem é metade do que uma biblioteca é — e faz as curvas devagar, porque um livro que sobreviveu quatrocentos anos pode ser acabado por um mau passo numa escada.

A diferença não é a sensibilidade. É o estado em que os livros chegam.

E naquele dia em particular, não fomos nós que trouxemos isso ao trabalho. Foi ela. Tudo o que tínhamos de fazer era estar à altura dos meses que ela já lá tinha posto.

Somos convidados a entrar

Outra coisa sobre este ofício, que demorei a notar.

Não as fachadas — toda a gente no Porto vê as fachadas. O interior. Há uns meses foi um prédio com uma série de jardins e terraços interiores que nunca se adivinhariam da rua, meio selvagens, inteiramente privados. Esta semana foi uma sala com nove mil livros dentro e uma escada que merecia melhores sapatos do que os meus.

Ninguém fotografa estes sítios. Não estão em nenhum roteiro. São só onde alguém vive, ou onde os livros de alguém estiveram sossegados durante décadas, e a porta abre porque há mobília para mudar.

A última caixa saiu ao fim da tarde.

Alguém disse algo banal do vão da porta — onde é que quer isto, ou é tudo — e voltou-lhe em eco.

A sala tinha eco agora. Uma hora antes tinha sido livros até ao teto, e os livros não deixam uma sala ecoar. Ninguém naquela casa tinha alguma vez ouvido aquela sala ecoar.

A bibliotecária ficou no vão da porta e não entrou.

Um dia hão de voltar, e as prateleiras vão encher, e a sala vai deixar de ecoar.

Levámos nove mil livros pelo Porto naquela tarde. Sei sobre o que é um deles.

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